Acadêmicos discutem caminhos para adoção de ações afirmativas no Brasil

O Seminário Internacional “A Ética e a Estética – Educação Inclusiva no Século XXI”  que aconteceu durante a FlinkSampa, debateu na sexta-feira (17), temas relacionados à inclusão da diversidade racial nos ambientes acadêmicos e corporativos.

Com o tema “Mundo Corporativo: Diversidade e Cidadania Globalizada”, o debate contou com a presença dos seguintes componentes: professoras Vera Lúcia Benedito e Eunice Prudente; professores Luiz Gonzaga Bertelli, Pedro Jaime e Humberto Adami e ainda, com Glaucimar Peticov, diretora de RH do banco Bradesco.

Durante o debate, Glaucimar Peticov lembrou a importância das empresas em implementarem, de fato, iniciativas que promovam a inclusão. Segundo ela, o Bradesco “vive literalmente essa transformação, o banco não só acredita como aposta nisto. Aqui mesmo há um haitiano que veio nos prestigiar mais uma vez, ele chegou e fez uma diferença  muito grande,  assim como os 400 alunos da Unipalmares que já estiveram conosco e 60% deles continuam conosco. Eu tenho muito orgulho de falar pra vocês que o banco tem hoje 24% da população afrodescendente, tem 40% de mulheres e isso é significativo no nosso mercado. Também temos 21% dessas pessoas em cargos de liderança”. Glaucimar ressaltou ainda o código de ética de uma empresa “tem que estar dentro da pessoa... a gente não pede pra ninguém vestir camiseta... a gente pede para que as pessoas tenham o banco como opção e não como falta de opção. Fora isso o nosso dever como área de RH é levar o conhecimento que é vital para que todos possam ter as mesmas condições no mercado e para gente isto tem sido muito importante. Ao longo dos anos a nossa parte de desenvolvimento alcançou um grande número de profissionais que chega a 3.200 pessoas por semana, em sala de aula, e a gente tenta fazer com que elas sejam engajadas, porque a gente precisa de um país melhor. Nós temos alunos da Unipalmares que estão fazendo a diferença, temos advogados, gerentes de agência, superintendentes e diretores que, literalmente, estão fazendo a diferença. A educação transforma pessoas, a sociedade e o país”, finalizou ela.

Em seguida, foi a vez do professor Pedro Jaime falar sobre as pesquisas que fez em torno do seu livro “Executivos negros: racismo e diversidade no mundo empresarial”, obra lançada em 2016 pela Edusp.  Em sua explanação, o professor ressaltou que a capa de seu livro já mostra o quanto as pessoas negras vão rareando quando se trata de atingir cargos de comando no Brasil. Ele também lembrou que para escrevê-lo, esteve nos Estados Unidos e na França fazendo pesquisas e que percebeu que existe um desencontro entre as ações afirmativas adotadas no Brasil e nos EUA, pois os movimentos sociais que implodiram já na década de 1960 naquele país, forçaram o governo americano a adotar ações afirmativas devido à pressão social que, desde então, só aumentou. Isso fez com que as empresas americanas também tivessem que absorver essas iniciativas, pois elas vinham da esfera pública. Segundo o professor, aqui no Brasil, na década de 1960, vivíamos uma suposta ‘democracia racial’ que fazia com que o racismo nem chegasse a ser debatido, isso só começaria a acontecer a partir dos anos 1980 e 1990 quando os governos da época tiveram que começar a se preocupar com isso devido à pressão que começou a ser feita. Ele também destacou que a atuação de ONGs ligadas aos movimentos negros durante o começo do século 21, que demonstraram ao Ministério Público que os bancos expressavam a desigualdade racial internamente, levou os órgãos públicos a implementarem certas medidas afirmativas. Pedro Jaime também lembrou que o racismo não é só aquele que é divulgado nas redes sociais quando acontece algo com uma celebridade e que existe o racismo sistêmico que independe das intenções racistas das pessoas.  O professor concluiu ressaltando que as iniciativas empresariais voltadas para a inclusão racial só avançam quando a sociedade pressiona o poder público e este cria leis que pressionam as empresas, como aconteceu nos EUA.

O seminário começou com a explanação sobre a comissão de verdade que, segundo ele, irá “mergulhar na verdadeira história da escravidão brasileira”. O objetivo desta comissão, de acordo com o professor, é buscar pistas e provas do crime que permitam “acusar o estado brasileiro, a colônia portuguesa e a igreja católica de uma forma que seja possível a reparação”. O professor lembrou que este documento já está tramitando pelas seccionais estaduais da OAB e também em várias comissões municipais que têm o mesmo objetivo. Durante sua fala ele citou o  caso do Cais do Valongo, no Rio, como um local que recentemente foi descoberto como sendo importante para a busca de informações desconhecidas sobre a escravidão brasileira e que este local foi descoberto por acaso.

Em seguida, foi a vez da professora Eunice Prudente que abriu sua fala  dizendo ser contrária às cotas e a favor das ações afirmativas, pois, segundo ela, é preciso criar condições para que os alunos entrem na faculdade e tenham condições de se graduar. Ela também ressaltou que nos EUA, país no qual desenvolveu seu doutorado,  quem fala em  ‘cotas’ são os conservadores, já os progressistas falam em ações afirmativas “pois não basta deixar uma pessoa entrar e sim, é preciso dar condições para que ela possa cursar a faculdade”. Eunice afirmou também  que estudou exatamente esse tema em sua tese de doutorado e que, naquele país, existem 13% de afro-americanos e 9% de representatividade destes nas empresas, fato que, de acordo com ela, mostra que a mobilização é importante.

Eunice disse ainda que no Brasil, discussões em torno de ações afirmativas  são ‘enviesadas’ e que tem certeza que se for feita uma pesquisa nacional sobre este tema, se descobrirá que muitos alunos que entraram nas universidades através das cotas não conseguem permanecer nelas porque não tem recursos financeiros para bancar os custos inerentes com livros, moradia, entre outros.

Eunice Prudente encerrou sua apresentação ressaltando que o Brasil está atrás inclusive de países das Américas Central e do Sul quando se trata de implementar ações afirmativas.

No final dos debates, os participantes puderam apresentar seus questionamentos para os palestrantes. 

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